30.10.13

Longe fica minha pátria*

Papeis- Cosecha própria
Longe do mundo, longe
da ordem natural das palavras;
longe,
a doze mil quilómetros
donde  o ferro é casa para o homem e cresce
como uma estranha flor apaixonada das nuvens;

longe do crisântemo, da asa suave do albatroz,
dos escuros mares que blasfemam de frio;

longe, muito longe donde a meia noite é habitada
e a maquina nós dita sua voz sobressalente;

longe donde já ficou atrás a esperança
donde a lamentação nasce morta ou se suicida
antes do que o afogue o lixo;

longe donde os pássaros odeiam,
donde de falam do amor hediondos lobos e te convidam
numa moradia de marfim;

longe donde os jardins atentam contra sua beleza
com as facas ganhadas do fumo;

longe,
longe,
longe donde o ar é uma grande garrafa cinzenta;

donde todos oferecem  terríveis bolhas de sabonete
e anjos depravados bebem com meninos cínicos
o veneno da apostasia contra todas as  alvoradas que podem;

longe da murmuração das mascaradas;
longe donde as nuas não cegam com a luz da sua pele;

longe da consolação dos vómitos;
longe da sensualidade do pantomimo,
da ressaca das suas imprecações sem fundo;

longe, terrivelmente longe
donde perseguem pelas ruas os monstros da seda,
donde os matos tremem derrotados e fogem,
donde cada chave tem uma porta que a aguarda sem sono;
donde germina cega a musica do ouro
e latem desatadas as mancheias de cobalto;

longe, definitivamente longe
donde morre o mártir lapidado pela mofa
e o santo é um palhaço que fica calado.
_____

*Nossa tradução livre do poema Lejos está mi patria do poeta salvadorenho Roque Dalton.
E agora, uma recomendação musical: 

No hay comentarios:

Publicar un comentario

Favor combatir la idea y no al mensajero, gracias!