20.10.14

Sábado

2014 - 10 - 19 - Pampa
             Sempre foi uma viagem. No SP, SC ou RS, Estrela, Guaíba, Rio Grande, Gramado, Mostardas, Lagoa do Peixe, Porto Alegre, lá na PUC que pariu, Ponta Grossa, Morro dos Sargentos, no Mercadão e tinha linguiça pimenta, queixo burguês, costela de ovelha e bacalhau mas isso nunca comprei; sem grana ou com grana, tu acha que precisa? A vida é uma, e é sempre viagem ou é sempre cadeia, e se for cadeia até isso pode virar viagem, depende da perspectiva pessoal, não tem melhor estimulante que a vontade de viver, mas não tem pior freio do que uma baixa autoestima, e a vida é uma, nos tempos bons e nos tempos ruins, tu não deixa de viver no tempo ruim, nas situações ruins, só se for muito ruim e morres de fome, mas dai tu da um jeito e roubas um banco ou pedes emprestado que é mais simples,  o mexicano emprestou-me 30 reais e dai eu vivi uns nove dias com isso, tempo ruim é ruim de viver mesmo, mas sempre dá pra rir, nessa mesma noite lá na Redença tinha um negócio duma serenata e não-sei-o-que, um monte de hippies e cada um dava um dois, muito chapado velho, sorriso de olhos vermelhos e não tinha nem pra o tostão, e isso também conta como coisa vivida, mais uma experiência e sem grana qualquer prazer é bem-vindo nem?; Tempo bom dá pra rir ainda mais, conheci à Rosy que é de bem do Norte e fomos bem ao Sul, lembro-me da viagem até o litoral gaúcho e da escuridão do ônibus, também um pouco ao Norte, mais não foi uma coisa assim muito longe do Sul, até Sampa só, porra meu! Gritando como um louco na rua, até na própria USP e Carandiru ou no carnaval em Floripa. Volto cá, não deixa de ser viagem, ainda que a movimentação não seja muita, e espero a oportunidade pra movimentar ainda mais.

13.10.14

Sexta

2014 - 10 - 13 - Confusão
                No espanhol a palavra jaula significa gaiola. Jaula é uma palavra muito parecida à aula, e aula no espanhol é o espaço físico onde a gente recebe a educação. É simples, então, pra um menino hispano-falante ficar obcecado por anos com aquela relação linguística entre aula e gaiola, é sem brincadeiras uma confusão perigosa. Mas o negócio pode virar um verdadeiro problema mental quando tens que ficar o dia tudo com o ar acondicionado ligado, produzindo muitos quilos de lixo inorgânico e escutando um gordão de termo Chanel falar em princípios do direito ambiental (precaução, prevenção e poluidor pagador) etecetera e numerando dicas sobre o cuidado do meio ambiente, e fora tem um mundo bem menos artificial, a Escola da Magistratura é um detalhe, guri. 

6.10.14

Quinta


            Lazer é o diabo.  No Bar Farroupilha, na Fernando Machado 899, bebi  998 copos de uísque, sempre tava o Márcio, mas cedinho só o Caué limpando as mesas, cobrando a grana e fornecendo cevas e cachaças, velhos alcoolistas, gauchada de chapéu na moda do pampa, botas de couro, bombacha  e faca no cinto, falando de outros tempos que nem viveram, Revolução Farroupilha e guerras contra argentinos e jesuítas, a conversa foi legal por vezes, mas comecei ler algumas coisas da história de Rio Grande do Sul tipo Capitania d´El Rey do Moises Velinho ou Origens da Economía Gaúcha (o boi e o poder) do Guilhermino Cesar e tomei conta que não tem assunto mais irreal do que papo de boteco. Algumas vezes caminhando desde o Centro pra casa, desviava pra lá. A escusa era ir a ler o Zero Hora e mesmo lia, e mesmo ia registrando mais um copo de uísque na conta, ou dois, ou cinco e após disso ia com as mãos no bolso da calça ou do casaco até a casa, às vezes feliz, a maioria do tempo triste, mas sempre cheguei. Quando ficava muito tarde ia bem na manha com o canivete na mão e olhando pra todo o mundo, nos olhos, só esperando, mas a Deus graças ninguém saiu furado; outras noites ficava li na Cidade Baixa esperando alguma coisa legal acontecer, uma vez, por exemplo uns jornalistas bêbados começaram a falar comigo e notaram o sotaque e fiquei bebendo com eles umas cevas artesanais na Pinacoteca, ou na Marcha da Maconha, nessa havia um monte de gente chapada gritando: Dilma-Rouseff(e)-legaliza-o-béque!!! No Gasômetro o negócio era bem mais saudável e só ia lá pra fazer esporte ou pra namorar à Rosy. Uma vez, uns policiais surpreenderam um velho fumando maconha, foi muito bizarro, por alguma razão lembrei ao avô e a fumaça noturna dos vizinhos, eles não fizeram nada nele, só pegaram a maconha sumiram.

            Lembro ter perdido o controle da vida com tanto tempo pra perder. Uma noite sai do bar, tava cedo e o desejo alcoólatra dominou todos meus sentidos, foi no Zaffari e comprei uma garrafa de Velho Barreiro e um vinho ruim da Serra, mas não  lembro como foi que acordei no quarto da pensão e nas garrafas já não tinha coisa nenhuma pra beber.   

29.9.14

Quarta

2014 - 09 - 05, As plantinhas
          Quarta é rugby, mas tava todo machucado duma peladinha desde domingo, segunda foi treino e a própria morte, terça pior, dai que tem pra ficar em casa, além disso tem uma costelinha de ovelha que ficou no molho de alho e mel na tarde inteira, umas batatinhas, cevas, ninguém pode se melhorar sem se alimentar nem? Rosy chegou e começou brincando do negócio do joelho meio ralado ou bem fudidão, só no rugby nem? Casado com o rugby nem? Agora o rugby fez-lhe bons dengos seu panamenho doidão! E ali falando do trabalho e da pesquisa chata das águas subterrâneas, dos viciados em remédios do RU tipo ritalina, do Morro dos Sargentos e as figurinhas de lá, o Evertom e sua memória de elefante mesmo chapado, isso é o Brasil, ainda bem que isso é pior do outro lado, bem do norte, bem pra lá acima, pertinho do Canal e sua mentira, mas chega disso, vamo lá no Zaffari que tá faltando um pãozinho fresco, no caminho tá o restaurante chinês, a Getúlio nessa hora é movimentada, gentes, cachorros e carros o Icaraí e o Menino Deus indo e vindo, tamo de mãos dadas e falando mais de mil coisas, safadices e de assuntos menos sérios, um beijo ou dois, pego a bunda e ela fica constrangida, diz que fica puta, mas dentro dela tá contente, e nisso ai tamos trazendo pra casa chocolate, suco de laranja, goiabada, queijo, sabão e sabonete, arroz, danoni Mulhé danoni, e pão e voltamos e a costelinha agora é que tá pronta, o forno aquece toda a cozinha além do próprio verão, uma delicia comer, agora nós comemos outra vez, ela come a minha costela tipo Eva e Adão, e vamos comendo mais, ela brinca da furação do joelho, mas até isso ela come, eu como ela, e comer é mesmo amar.

22.9.14

Terça

2014 - 09 - 19
                Disforia. É mesmo chato, o tempo transcorrendo devagarinho, é assim na pior, quando todo dá errado, quando mesmo sendo direito o negócio fica torto e a vida vira literalmente num espaço e tempo sacana. Lembranças do quarto da pensão, longe de todo o conhecido, a liberdade ali, feita num embrulho, pronta pra utilizar, mas sem usufruir, a alma cheia de magoa sem motivo nem necessidade, um medo de proporções continentais pra quem já foi tão rebelde na sua província é cuspida no rosto, afogado num copo pequeno e plástico que enche de uísque vagabundo e cinza de cigarro daquela fumaça fedorenta a árvore queimada, tipo morador de rua com todos os benefícios do burguês, uma ou duas fomes verdadeiras e mil decepções relativas, algum grito entrando pela janela que virou numa semana a única conexão com o mundo porto-alegrense.

            Na pensão só tinha estrangeiro: de dentro do país, mas longe, de dentro do Estado, mas distinto, de fora do país e feito uma bagunça, todos com a convicção de continuar vivendo as suas vidas, Deus só olhando às vezes não; deitado e acordado doze horas, como uma alucinação consciente, imagine se tivesse sido naquela habitação sem janela, mas com cheiro de mofo da Duque de Caxias, é possível que as próprias veias tivessem arrebentado sozinhas e o assunto ficaria esquecido após das investigações ou seria mais um papo de boteco, hoje é só uma palavra que dá nome a um estado anímico num tempo fechado e pra outros por abrir, ainda bem.      

15.9.14

Segunda

2014-09-06
          Assistindo um filme chileno titulado En La Cama, insistência do saudoso Wellington, mas mesmo uma burrice, ainda bem pelas cenas das transas e a guria, bonita, seios portentosos e bunda formosa, o magrão com rosto de pássaro prototípico do perfeito bonitão-bobalão, puderam trocar ele por uma outra guria e fazer um filme pornô e lamecha de sáficas falando o tempo tudo em "güeón" esquisita e invariável costume dos chilenos, porque mesmo sendo boa parte do filme  de categoria xx os diálogos (todos dentro dum quarto com o mesmo casal de güeones) são piegas de mais, dá pra ficar enjoado do papo após da segunda cena de transa, mas os seios da guria, bunda saborosa, e vá transcorrendo o tempo devagar, como acontece com os filmes chatos até que outra transa acontece.  Roteiro pra a segunda parte com lésbicas ou duas mulheres bissexuais se apaixonando nuas num quarto poderia virar sucesso mundial.

8.9.14

Domingo

Pôr-do-sol, 2014 - 09 - 04
          Dum convite esquisitão pra não sei o que gordice, sanduiches, cevas e rugby na TV Sport, ligaram, ficaram putos, tá longe o negócio meu, na Zona Norte pertinho da PUC que pariu, imagina, o bagulho do ônibus ficou uns quinze minutos na porra da Venâncio, uns alternativos tinham um protesto contra a tradição do churras familiar, chega de violência animal, isso muda o mundo; mas pense numa  picanha malpassada no pão com manteiga, um filé de frango ao espeito, uma costelinha de ovelha com mel e alho no forno, uma Polar mas não feita de urso, tudo isso tá rolando lá seus escrotos, é possível que os caras sejam maconheiros ou bichas e nisso ninguém pode ser contra, porque se fosse assim isso ai seria preconceito preconceito preconceito! Segundo eles, mas eles não respeitam de jeito nenhum o direito dos outros de comer uma boa carne, sacanagem guri, os amigos tão esperando lá velho, tá o Farmer, o Rodolf, o Paulo, o outro Paulo (Nojento) e o Márcio, barbaridade tchê, que merda, uma hora de atraso e tô longe mesmo.

1.9.14

(Karimov)

Karimov, 9-junio-2014

             El régimen es placentero para el regidor que ha moldeado a los regidos a su gusto, mantiene cada cosa en su lugar y que todo salga a pedir de boca, es difícil, pues también van surgiendo cosas desagradables y no hay más remedio que crear otras leyes a conveniencia como moldes de fabricación industrial, en la fábrica del régimen y de acuerdo a las especificaciones del regidor, los moldes son desechables, así como hoy hay una ley mañana habrá otra que contradiga a la de hoy, todo definitivamente depende, el rey determina y ordena aunque hay otras situaciones en las que tristemente no hay otro camino que aplastar a súbditos rebeldes, desaparecerlos en los desiertos de las inmediaciones de la ciudad, deshacerlos como a un molesto hilillo de carne entre los dientes, en otras circunstancias es el puro gusto de conservar las costumbres, la muerte por la muerte que la historia rememora, entonces mueren opositores aunque sean técnicamente  inofensivos, escuadrones que se encarguen de barbudos y oradores piadosos, o a los jóvenes que se van convirtiendo a la religión que curiosamente lleva el nombre del rey; según los cables internacionales Karimov no tiene corona y ha permanecido en el poder desde 1989, es algo así como el Rector de la Universidad de Panamá García de Paredes en relación al tiempo de gobierno, pero el tipo gobierna un país entero y gigante, con un plumazo hace o deshace cosas en el país, puede también deshacer uzbekos, tayikos o muyahidines, es un tipo gris y burocrático, aburrido dirían algunos, soviético y comunista sin regenerar para otros y todos concuerdan que es un genocida a placer.  

26.8.14

O Rio, Julio Cortázar*

Pez en el agua, 2013 - 09 - 30, http://goo.gl/JsUxY0

          E sim, parece que é assim, que te foste dizendo não sei o que coisa, que ias a mergulhar no Sena, algo pelo estilo, uma dessas frases de plena noite, misturadas de edredão e boca pastosa, quase sempre na escuridão ou com algo de mão ou de pé roçando o corpo de quem apenas escuta, porque faz tanto que apenas escuto quando dizes coisas assim, isso veem do outro lado dos meus olhos fechados, do sono que outra vez me joga embaixo. Então tá, não me importo se te foste, se te afogaste ou ainda andas pelos portos olhando a água, aliás, não é certo pois estás aqui dormida e respirando trabalhosamente, mas então não te foste quando te ias em algum momento da noite antes que eu me perdesse no sono, porque te foste dizendo alguma coisa, que te ias a afogar no Sena, ou seja que tiveste medo, tens desistido e de chofre estás ali quase acariciando-me, e te movimentas ondeando como se algo trabalhasse levemente  no teu sonho, como se em verdade sonhasses que foste embora e depois que todo chegaste aos portos e mergulhaste na água. Assim mais uma vez, para dormir depois com a cara molhada dum choro estupido, até as onze da manha, a hora em que trazem o jornal com as noticias dos que se afogaram de verdade.
            Fazes-me rir, coitada. Tuas determinações trágicas, esse jeito de bater as portas como uma atriz de tournées de província, um se pergunta se realmente acreditas nas tuas ameaças, tuas chantagens nojentas, tuas inacabáveis cenas patéticas untadas de choro e adjetivos e recontos.  Merecerias alguém mais dotado do que eu para que te desse a replica, então ficaria o casal perfeito, com o fedor saboroso do homem e a mulher que se destroçam se enxergando aos olhos para ter certeza do emprazamento mais precário, para sobreviver ainda e voltar a começar e perseguir inesgotavelmente a sua verdade de terreno baldio e fundo de caçarola. Mas sabes, escolho o silêncio, ascendo um cigarro e escuto tuas palavras, escuto tuas queixas (com razão, mas o que posso fazer?), ou o que é ainda melhor vou ficando dormido, abrigado quase pelas tuas imprecações previsíveis, piscando misturo ainda por um momento as primeiras lumes dos sonhos com tuas gesticulações de camisola ridícula embaixo da luz da aranha que deram-nos em presente quando nós casamos, e acredito que ao final durmo e levo comigo, te confesso quase com amor, a parte mais aproveitável dos teus movimentos e tuas denuncias, o som barulhento que deforma teus lábios lívidos de cólera. Para acrescentar meus próprios sonhos, onde ninguém jamais inventou afogar-se, podes acreditar.    
            Mas se fosse assim me pergunto o que estás fazendo nesta cama que tinhas decidido abandonar pela outra mais vasta e fugiente? Agora dormes, de quando em quando moves uma perna que muda o desenho do edredão, pareces magoada com alguma coisa, não muito magoada, é um cansaço amargo, teus lábios esboçam uma careta de desapreço, deixam fugir o ar aos poucos, o recolhem em sorvidas breves, e acredito que senão estivesse tão exasperado pelas tuas falsas ameaças admitiria que tu és outra vez bela, como se o sono te devolvesse um pouco ao meu lado onde o desejo é possível e até a reconciliação ou um novo prazo, algo menos cinzento que este amanhecer onde começam a rodar os primeiros carros e os  galos abominavelmente despem sua horrenda serventia. Não sei, agora nem tem mais sentido perguntar outra vez se em algum momento foste embora, se tu foste quem bateu a porta ao sair no instante mesmo em que eu resvalava ao esquecimento, e pode ser que por isso prefiro tocar-te, não porque tenha duvidas de que estás ali, provavelmente em momento nenhum te foste do quarto, quiçá uma batida do vento fechou a porta, sonhei que ias embora enquanto tu, acreditando que eu estava acordado, me gritavas tua ameaça desde os pés da cama. Não é por isso que te toco, na penumbra verde do amanhecer é quase doce apalpar esse ombro que se estremece e me rejeita. O edredão te cobre à metade do corpo, meus dedos começam a baixar pelo delicado desenho da tua garganta, inclinando-me respiro teu hálito que cheira a noite e xarope, não sei como meus braços te hão enlaçado, escuto a queixa por enquanto arqueas a cintura negando-te, mas os dois conhecemos em excesso esse jogo para acreditar nele, é preciso que abandones minha boca que gagueja palavras soltas, de nada serve que teu corpo amodorrado e vencido lute por evadir-se, somos a tal ponto uma mesma coisa nessa bagunça de nó onde a lã branca e a lã preta lutam como aranhas num bocal. Do edredão que apenas conseguia cobrir-te ainda enxergo a lume instantânea que cruza o ar para perder-se na sombra e agora estamos nus, o amanhecer envolve-nos e reconcilia-nos numa matéria tremente, mas teimas em lutar, te encolhes, atiras os braços sobre minha cabeça, abrindo como num relâmpago as coxas para voltar a fechar tuas tenazes monstruosas que tentam separar-me de mim. Tenho que dominar-te devagar (e isso, o sabes, o fiz sempre com elegância cerimoniosa), sem  machucar-te vou dobrando os juncos dos teus braços, fico aderido a teu prazer de mãos crispadas, de olhos arregalados, agora teu ritmo finalmente afunda em movimentos lentos de moiré, de profundas borbulhas subindo até meu rosto, vagamente acaricio teu cabelo vazado no travesseiro, na penumbra verde enxergo com surpresa minha mão pingando, e antes de cair ao teu lado sei que acabam de sacar-te da água, muito tarde, naturalmente, e que jazes sobre as pedras do porto rodeada de sapatos e vozes, nua com teu cabelo molhado e teus olhos abertos.
___________

*Tradução do Conto El Rio do Livro Final del Juego, 1956.  

25.8.14

Valle de Fergana

Valle de Fergana, 2014 - 06 - 08
             No puede decirse con exactitud lo que sucede en el Valle de Fergana, muy poca es la literatura existente al respecto y mucho menos los reportajes periodísticos que se hacen y llegan hasta aquí. Sin embargo, está toda aquella mitología construida con las pocas referencias populares, la crueldad dictatorial de los caudillos, los espíritus de cadáveres de las revoluciones islámicas, la oscuridad soviética de las arquitecturas y el desierto artificial de los desastres humanos; y ¿qué otras tantas cosas nacen de esa combinación de elementos abstractos al lejano entendimiento del mar caribe y probablemente cotidianos para las gentes del otro lado? En el Valle de Fergana existen recintos inaccesibles en los que la vida se desdobla y ya no es aquello que conoce la ciencia, el respirar es un viento creado por las montañas y que los pocos árboles purifican, no como la fotosíntesis tal cual ha sido estudiada, sino en un simple placer por soplar fuera lo se llevaron dentro al inhalar el aliento de un congénere, y el propio exhalar de los árboles es el viento perenne que hace al cielo tan gris, aterrador en principio, pero con su belleza de matices lineales, aunque en esos lugares específicos cada línea natural es confundida con otra línea trazada por el hombre con sus máquinas, un dibujo malo o bueno dependiendo de la interpretación, pero al fin y al cabo contornos diseñados para ser interpretados con la misma ambigüedad con que han nacido, las nubes reflejan  a la tierra, solamente su sombra y es igualmente relativo lo que dejan ver bajo ellas, como si todo fuese puesto en negro sin que hayan contrastes evidentes, como una trampa al observador, pero hay que hablar de los árboles también, que tienen como carácter propio y soplan viento en las direcciones nunca cambiantes, a veces se ve a algún ser extraño sentado sobre ellos, dejando calmar el espíritu.

18.8.14

Inocencia recurrente


                La pregunta innecesaria guarda relación al tiempo pasado de las inocencias, no se sabe si en realidad debe hacerse en público, aunque sí se sabe que nada se resuelve con eso ¡Si acaso se supiera cuándo opera esa división temporal entre la dulce criaturita risueña cándida y el adulto, mañoso, vicioso, incorregible!; que es imperceptible a las miradas simplistas o acaso habrá que despotricar contra los factores externos, sobre todo a los compinches. Muchos comenzaron por la marihuana junto a sus secuaces apocalípticos y eso es señalado como sentencia inapelable, pero la más de las veces sucede que el apocalipsis viene de adentro, esa curiosidad por lo ilegal o la propensión a la navegación psicotrópica, y los padres dale que dale con lo de echar a otros las culpas de los hábitos diabólicos de los santos que tienen en casa, inclusive  con alguna defensa patética con todo y berrinches contra los demás integrantes de la pandilla, meten la mano en la candela por sus hijos casi beatos y la dejan allí no más que por orgullo, para luego verse los dedos carbonizados, niegan todo dolor como si con eso pudiesen apagar el incendio que se les viene encima, y continúan esa negación con todos los fuegos el fuego de años y luego tienen que ver a  un indigente hecho y torcido, fumador de crack, mal oliente, oliente de cocaína a ratos lujosos cuando caen algunos billetes mendigados en alguna acera o de la caridad del propio padre, que volvió a la inocencia y cree ciegamente en que eso que le dio lo gastará en alguna comida, sea como sea regresa al estado de total ignorante e  incauto por voluntad propia, por eso nada queda resuelto al formular la pregunta ¿Cuándo se pierde la inocencia? si de todos modos siempre se regresa alguna vez a ella, aunque el caso no tiene que ser tan extremo en todas las situaciones.  

11.8.14

Inertiatic


          Onomatopeya de The Mars Volta, ahora está perdido/nou-an-los; un vértigo sónico, reproducción de beats coordinados o paralelos, progresivos, Lo que quiera que fuese poco tiene que ver con lo que escuchan de cerca, todos sus ritmos cadentes, tautológicos, empobrecidos de tanta máquina y poco instrumento, un budun bum bum mueve el bumbum (¿qué decir de las líricas?), sin embargo la democracia y los gustos ganan por mayorías, y es una demanda no inventariable de absurdos sus decisiones y su “música” que debe permanecer entre comillas para respetar a la Música. Con toda esta estridencia de estética uniforme, de prefabricación artística a borbotones hay nuevas razones para reflexionar en el aparente caos de una Música diferente, que haya tantos que la  ignoren a propósito o que les da pereza escudriñar es el nuevo regocijo de comités de control y censura, ya sin ninguna razón aparente de existir aún viven cómodamente con las asignaciones del presupuesto público, tras los despachos los buro-censores sonríen tranquilamente recordando otros tiempos en los que se esmeraban en la pantomima de sus labores para sancionar obscenidades y otros artículos cursis que ahora son el pan de consumo industrial, jugada histórica como un monumento de la sicología inversa que es quizá el éxito de tanta porquería que suena en la radio, la prohibición que invitó  el consumo y la aceptación del doble sentido y la matanza, de lo que se trata ahora es que todos escuchen lo mismo que se requiere que escuchen, una especie de puré fácilmente digerible al tímpano levemente condimentado con algún picante sexual o violento, nada de melodías extrañas ni dificultades filosóficas en las líricas.      

4.8.14

Yihad

Yihad - 2014 - 06 - 10
         No es específicamente como lo pintan, Yihad implica algo más profundo que destruir, de hecho, ni siquiera es destruir y más bien contempla una construcción, construirse por dentro y estar preparado. Es un guerra, sí, pero el enemigo es el monstro de uno, el que puede quemar por dentro cuando uno no lo controla, y en ese incendio corrompe y transforma al ser como un todo en un demonio ni más ni menos, posiblemente en un terrorista o en un político corrupto, en un mercenario o en un tirano, en un asesino por placer o a sueldo, tanto hace el resultado final de la degeneración, porque al fin y al cabo en la degeneración en sí misma habita ese germen que lo va pudriendo todo, lo propio y lo ajeno, es allí que inicia a entenderse mal el término Yihad, en la degeneración de los que lo usan, que sin luchar con los demonios propios declaran una guerra santa, una cacería contra tal persona o cuál régimen y eso implica una seria contradicción: ¿Cómo es posible que un demonio declare la guerra en nombre de Dios?

            En ningún lado dice que las religiones son  asociaciones con objetivos criminales propiamente, en ningún texto religioso existe una exhortación al asesinato de quienes no compartan la misma fe, consecuentemente no puede hablarse de una Yihad asesina. De lo que sí debe debatirse es sobre las malas interpretaciones en relación a ciertas normas religiosas por determinados grupos de intereses y eso no aplica solamente para el Corán y a la interpretación que de él hagan los extremistas sino también a quienes hacen de la Biblia un argumento para sacarles el dinero a los cristianos, ese diezmo que a tantos les hace falta hasta para completar un plato de comida y que siervos, pastores o sacerdotes cobran con diligente inclemencia, que no es lo mismo pero al fin y al cabo en las dos situaciones referenciales la degeneración termina por afectar inocentes, y ninguna religión ni ningún dios debe ser erigido sobre el dolor de seres humanos. Habrá quien no lo vea de esa forma, pero la historia se ha encargado de condenar a los que en nombre de Dios han matado y a los que en nombre de Dios se han enriquecido. El piadoso construye su Yihad, combate contra sus propios ánimos de maldad, destruye a su monstro interno en cada una de sus acciones y esto le da también la moral para rebelarse contra las arbitrariedades, por eso el burócrata corrupto  y otros tantos irracionales temen a la Yihad verdadera, al ser lo mismo que la justicia divina cumplida a manos de gente de fe. 

28.7.14

Calor calor


            Calor bailando en todo, como un verbo omnipresente y elástico, en espacios cerrados, llega a las nubes en el desierto de noche, a la ciudad de mañana o en cualquier otro orden cronológico, toda una institución de instituciones, un sistema de baja presión y diagnósticos universitarios similares enmarañados con humedad relativa y sensación térmica en una sección cajonera del telediario, no es mental o sea, simplemente habrá necedad y controversias porque el sudor sale de cara al viento ante esfuerzos menores o en las camas entre dos cuerpos como una ley irrefutable a consecuencia de la producción de calor en la intensidad del movimiento,  sin más explicaciones que las científicas, física básica para novatos; en los inviernos fuertes está el horno encendido con la tapa abierta para que la casa caliente, en los veranos los grifos echan agua al punto casi de la ebullición que parece una broma de mal gusto al sentirla en las manos, es surreal una quemadura de esas o al ponerla en la cara sudada para ningún alivio sino que la sensación placebo del puro gusto de intentar algo y nada más, calor como acción, mal necesario o necesidad placentera, nunca ausente en su totalidad.

21.7.14

Vieja enamorada


          Se decía y puede que se siga diciendo como una grave sentencia entre la gallada que la lluvia de sol brillante era señal irrefutable de que una vieja estaba enamorada, obviamente era difícil establecer con precisión quién era la vieja que pasaba su mal de amores en ese momento, y generalizar o hacer señalamientos imprudentes era un atentado a la reputación de las propias abuelas del barrio o la de cada integrante de la pandilla, porque es más cómodo ver los problemas ajenos Además de la infidelidad del nuevo amor, una afrenta contra el sagrado matrimonio, el abuelo podría morir de cabanga como un pajarito australiano o hacer que no le importaba y comprar viagra y perderse como en sus años mozos, causando una extraña circunstancia familiar a esas alturasasí que la historia terminaba siempre bajo protagonismo de Martina, una señora muy malhumorada, vivía sola junto al parque, vendía duros y a las horas de juego se quedaba viendo atenta cada movimiento de la bola y a los muchachos con una expresión bizarra, a veces y estas eran las ocasiones más esperadas llovía y había fútbol bajo las gotas, también sol y Martina inclemente en el jardín, de mirada melancólica y rumores de suspiros. Ya ha muerto Martina y nadie vende duros, los jugadores de esa generación están en sus trabajos tristes de adulto mientras siguen cayendo lluvias soleadas, sobrevive el mito y tantas preguntas ¿Acaso el amor tiene una edad para ser? ¿Sentirán los abuelos dudas sobre la estabilidad de sus relaciones maritales de décadas al ver el sol atrás del aguacero? ¿Quién es el galán de la señora?

14.7.14

Doscientos años


           Ni doscientos años serían suficientes, las cosas seguirían dándose como pasan, a ninguno le importa, total, los resultados no afectan a nadie y aunque así fuese, una muerte, una quiebra, una desaparición, son hechos que terminan por olvidarse por otras cosas tantas que hay que hacer para evitar que vuelvan a suceder y si suceden, serán olvidadas otra vez o quedarán en el recuerdo de los libros o los sitios web como simples referencias de lo que sucedió por el motivo que sepa el diablo para completar el círculo vicioso y tratar de que no sucedan, porque tratar es lo único que puede hacerse frente a lo inevitable y es que ni toda la existencia ha sido necesaria para perderla en explicaciones, uno que otro filósofo o científico yacen frustrados, se disecaron en el encierro, sumidos en la búsqueda de respuestas que se le escapaban entre las necedades, huidas de las cárceles voluntarias escogidas como vida, porque las verdades están en los campos y en el viento, dejadas al vaivén de los calendarios pero ocultas a la profanación vana del conocimiento, porque deben permanecer ajenas a las definiciones exactas y a las formulas, siempre teorizables aunque ausentes de toda precisión, conjeturas a veces absurdas y si relativamente ciertas, unánimemente aburridas. Por otro lado, ningún tiempo está dedicado a su descomposición improductiva o pérdida, sí, en momentos recurrentes es ocio y viciosa perdición, más de doscientos años de desdichas acumulables y no debe ser ignorada la posibilidad de adquirir experiencias dañinas y edificantes tan vastas como el Sahara.  

7.7.14

Límite


         Hay una línea para que cada cosa deje de ser otra, a veces inclusive a la vista cercana pareciese no existir contrastes aparentes entre las edificaciones y en otra ubicación diferenciada todo es diversidad, gentes, movimiento, eso que no se ve desde miradores panorámicos  o en la ventana del avión a mil(es) pies, el desdén de la metáfora de los humanos como hormigas, en la distancia pequeñísimos puntos que se desplazan entre los orificios metropolitanos que a su vez se demarcan entre los cajetones de hormigón acerado, sendas asfaltadas y aparentes espacios abiertos, elementos necesarios para el mantenimiento del urbanismo, parques, andén, plazoletas, alguno se detiene a pesar del apremio y el revolú rutinario y grita a todos los decibeles que le permite la garganta, un grito de angustia o de júbilo puede cambiarlo todo aunque es solamente ruido, y eso es también una línea aunque no se vea porque se distingue entre todos los ruidos monótonos de la jornada, algo que separa cosas de otras, para la subjetividad individual ocurre que las líneas se marcan en base a percepciones, abiertas a fuerza de las circunstancias temporales que cada quien vive al presente y en pretérito imperfecto, o al futuro promisorio, quien grita se encuentra en cualquiera de ellas, sin embargo cada una encuentra medidas establecidas para cumplirse como periodos cualquieras, pero las medidas son fijas, de duraciones relativas, segundos, meses, décadas, pequeñas o grandes medidas de tiempo que dividen las sucesivas oscuridades de la madrugada, de los amaneceres.

30.6.14

Crescimento do céu

Crescimento

                Numa viagem pelo recôndito sul do país enxergaram trás o mato mórbido a fumaça das cores pastel, uma poluição bonita e uniforme que ia crescendo às dez e seis horas, após da pergunta explicaram-lhes os nativos que nesse momento as casas dos povoados de perto ascendem o fogo pra cozinhar os alimentos e nessa jornada a janta seria mais-do-que-especial pelos convidados, e todo ia virando cor, como um pôr-do-sol adiantado, ficou o céu tingido, mas o ar pesado e restrito pra a respiração dos acostumados ao cheiro sufocante da fumaça, em breve todos calaram e os rostos dos viajantes eram mais que menos medo, vontades de largar, mas a fumaça crescia tipo show de bola, só ficava curtir, tudo pronto pra esquecer, um prelúdio inócuo da inconsciência porque o céu também crescia e as cores enchiam todo espaço vazio, cores e mato longe pra ninguém lembrar que não haveria mais oxigênio respirável na hora, e ninguém conseguiu contar às outras civilizações o fantástico crescimento do céu e suas majestosas cores nunca foram reproduzidas artificialmente. 

26.5.14

Fruta de temporada

Cosecha propia, 24-05-2014

           Han sido dulces todos los momentos, hasta el hastío previo al asco, tipo proceso de descontaminación del cigarro: necesidad ansias abstinencia desintoxicación superación desagrado; desagrado de lo que antes fue tanto, quizá el mundo para quien sólo apagaba la colilla después de  encender con ella un cigarro nuevo, desagradable, y como su ceniza al viento ahora no es más que un recuerdo distante sumergido en las profundas lagunas de la memoria y sale a flote en un NO en trio, NO en afirmación, NO en reafirmación y NO en confirmación, no no no, no porque fue y ya no es,  no porque ya era y ahora dejó de serlo, no porque es otra situación con otras circunstancias, pero después de cualquiera de las razones un no de esa cualidad entraña haberse empalagado de toda la fructosa de la fruta en la abundancia de su temporada o de cualquier azúcar artificial imaginar una feria, muchas nubes fucsias de azúcar, su ostentación de repugnante colorido capaz de incitar la regurgitación— y uno amargo y antiguo prefiere el café humeante y negro sin ningún endulzante mientras mozuelos y eunucos de alegría fácil se escandalizan con el sublime ritual de degustación, y cada tiempo es distinto y cada tiempo tiene sus distinciones y cada distinción tiene su tiempo para serlo y otro para podrirse.
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23.5.14

kfc

Cosecha propia, 22-05-14

            En las conversas de las fiestas chic también se habla de los pollos con la profundidad de los análisis esnob que la embriaguez permite y hasta en un tono incendiario que por momentos sorprende, quien no conozca creerá que allí existe el potencial revolucionario para defenestrar a los gansters del mundillo de la mafia avícola será o que cuando menos con la propia fuerza de los gritos, que compiten con el volumen de Pharrell Williams y su bazofia feliz, dará para sacarlos de las jaulas en que los encierran pobrecitos, por ejemplo; es normal sentir interés por algunas teorías, que están robotizados, es el hipnotismo de la producción en cadena[1] para gente encadenada, comidos fritos en sus pellejos de harina en todas las mecas de la comida rápida, todo esto es una metáfora de que tras la sobria decoración y tranquilidad  de estas instalaciones se esconde el origen de todos los males de la tierra comenzando por el colesterol alto en los infantes y la obesidad de los que compran dos o tres canastas de pollo a la semana según las estadísticas de la FAO, toca verlos en otra faceta en el muestrario cristalizado y gélido de la sección de las carnes; sus poros afeitados en ese color entre rosa y blanco. Ha sucedido que  la pechuga de un mismo pollo está de un lado desinflada y del otro grande, la reiterada práctica no es culpa del carnicero ni de su estilo estándar de corte, expertos de fábricas de los países industrializados del Este de Europa  entienden el fenómeno como una situación normal del proceso de crecimiento acelerado, en ese detalle nadie se mete, el internet es una fuente de saberes y falacias, dice el emisor del comentario como para disculparse, silencio, incomodo, los demás siguen diluyéndose en tantos otros diálogos sobre personas famosas o cosas que desde allí se ven lejanas y tenues con los vasos llenos de vodka y red bull.


[1] Versión de un invitado del Partido Verde.

20.3.14

Cuaderno Catarsis



                Hola estimada(o) lector(a), soy Joao Quiróz, autor de este blog y en esta ocasión es para mí una gran satisfacción obsequiarte Cuaderno Catarsis, una publicación fruto de mi experimentación y trabajo en buena parte de mi estadía en Porto Alegre, Brasil. Cuaderno Catarsis No es un libro convencional y si le echas un vistazo, te darás cuenta porque lo digo. Es totalmente gratis y te agradecería mucho que si te gusta, lo recomiendes a otras personas y si tienes críticas también me gustaría leerlas o escucharlas, pues en mi opinión eso también hace parte de este trabajo y me ayudará a mejorar.

            La versión que ves aquí en el blog es solamente una muestra que sinceramente, no tiene la mejor calidad, por eso te recomiendo que lo bajes en la versión PDF o en la versión EPUB, también son totalmente gratuitas. Te agradezco tu tiempo.