26.8.14

O Rio, Julio Cortázar*

Pez en el agua, 2013 - 09 - 30, http://goo.gl/JsUxY0

          E sim, parece que é assim, que te foste dizendo não sei o que coisa, que ias a mergulhar no Sena, algo pelo estilo, uma dessas frases de plena noite, misturadas de edredão e boca pastosa, quase sempre na escuridão ou com algo de mão ou de pé roçando o corpo de quem apenas escuta, porque faz tanto que apenas escuto quando dizes coisas assim, isso veem do outro lado dos meus olhos fechados, do sono que outra vez me joga embaixo. Então tá, não me importo se te foste, se te afogaste ou ainda andas pelos portos olhando a água, aliás, não é certo pois estás aqui dormida e respirando trabalhosamente, mas então não te foste quando te ias em algum momento da noite antes que eu me perdesse no sono, porque te foste dizendo alguma coisa, que te ias a afogar no Sena, ou seja que tiveste medo, tens desistido e de chofre estás ali quase acariciando-me, e te movimentas ondeando como se algo trabalhasse levemente  no teu sonho, como se em verdade sonhasses que foste embora e depois que todo chegaste aos portos e mergulhaste na água. Assim mais uma vez, para dormir depois com a cara molhada dum choro estupido, até as onze da manha, a hora em que trazem o jornal com as noticias dos que se afogaram de verdade.
            Fazes-me rir, coitada. Tuas determinações trágicas, esse jeito de bater as portas como uma atriz de tournées de província, um se pergunta se realmente acreditas nas tuas ameaças, tuas chantagens nojentas, tuas inacabáveis cenas patéticas untadas de choro e adjetivos e recontos.  Merecerias alguém mais dotado do que eu para que te desse a replica, então ficaria o casal perfeito, com o fedor saboroso do homem e a mulher que se destroçam se enxergando aos olhos para ter certeza do emprazamento mais precário, para sobreviver ainda e voltar a começar e perseguir inesgotavelmente a sua verdade de terreno baldio e fundo de caçarola. Mas sabes, escolho o silêncio, ascendo um cigarro e escuto tuas palavras, escuto tuas queixas (com razão, mas o que posso fazer?), ou o que é ainda melhor vou ficando dormido, abrigado quase pelas tuas imprecações previsíveis, piscando misturo ainda por um momento as primeiras lumes dos sonhos com tuas gesticulações de camisola ridícula embaixo da luz da aranha que deram-nos em presente quando nós casamos, e acredito que ao final durmo e levo comigo, te confesso quase com amor, a parte mais aproveitável dos teus movimentos e tuas denuncias, o som barulhento que deforma teus lábios lívidos de cólera. Para acrescentar meus próprios sonhos, onde ninguém jamais inventou afogar-se, podes acreditar.    
            Mas se fosse assim me pergunto o que estás fazendo nesta cama que tinhas decidido abandonar pela outra mais vasta e fugiente? Agora dormes, de quando em quando moves uma perna que muda o desenho do edredão, pareces magoada com alguma coisa, não muito magoada, é um cansaço amargo, teus lábios esboçam uma careta de desapreço, deixam fugir o ar aos poucos, o recolhem em sorvidas breves, e acredito que senão estivesse tão exasperado pelas tuas falsas ameaças admitiria que tu és outra vez bela, como se o sono te devolvesse um pouco ao meu lado onde o desejo é possível e até a reconciliação ou um novo prazo, algo menos cinzento que este amanhecer onde começam a rodar os primeiros carros e os  galos abominavelmente despem sua horrenda serventia. Não sei, agora nem tem mais sentido perguntar outra vez se em algum momento foste embora, se tu foste quem bateu a porta ao sair no instante mesmo em que eu resvalava ao esquecimento, e pode ser que por isso prefiro tocar-te, não porque tenha duvidas de que estás ali, provavelmente em momento nenhum te foste do quarto, quiçá uma batida do vento fechou a porta, sonhei que ias embora enquanto tu, acreditando que eu estava acordado, me gritavas tua ameaça desde os pés da cama. Não é por isso que te toco, na penumbra verde do amanhecer é quase doce apalpar esse ombro que se estremece e me rejeita. O edredão te cobre à metade do corpo, meus dedos começam a baixar pelo delicado desenho da tua garganta, inclinando-me respiro teu hálito que cheira a noite e xarope, não sei como meus braços te hão enlaçado, escuto a queixa por enquanto arqueas a cintura negando-te, mas os dois conhecemos em excesso esse jogo para acreditar nele, é preciso que abandones minha boca que gagueja palavras soltas, de nada serve que teu corpo amodorrado e vencido lute por evadir-se, somos a tal ponto uma mesma coisa nessa bagunça de nó onde a lã branca e a lã preta lutam como aranhas num bocal. Do edredão que apenas conseguia cobrir-te ainda enxergo a lume instantânea que cruza o ar para perder-se na sombra e agora estamos nus, o amanhecer envolve-nos e reconcilia-nos numa matéria tremente, mas teimas em lutar, te encolhes, atiras os braços sobre minha cabeça, abrindo como num relâmpago as coxas para voltar a fechar tuas tenazes monstruosas que tentam separar-me de mim. Tenho que dominar-te devagar (e isso, o sabes, o fiz sempre com elegância cerimoniosa), sem  machucar-te vou dobrando os juncos dos teus braços, fico aderido a teu prazer de mãos crispadas, de olhos arregalados, agora teu ritmo finalmente afunda em movimentos lentos de moiré, de profundas borbulhas subindo até meu rosto, vagamente acaricio teu cabelo vazado no travesseiro, na penumbra verde enxergo com surpresa minha mão pingando, e antes de cair ao teu lado sei que acabam de sacar-te da água, muito tarde, naturalmente, e que jazes sobre as pedras do porto rodeada de sapatos e vozes, nua com teu cabelo molhado e teus olhos abertos.
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*Tradução do Conto El Rio do Livro Final del Juego, 1956.  

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