20.10.14

Sábado

2014 - 10 - 19 - Pampa
             Sempre foi uma viagem. No SP, SC ou RS, Estrela, Guaíba, Rio Grande, Gramado, Mostardas, Lagoa do Peixe, Porto Alegre, lá na PUC que pariu, Ponta Grossa, Morro dos Sargentos, no Mercadão e tinha linguiça pimenta, queixo burguês, costela de ovelha e bacalhau mas isso nunca comprei; sem grana ou com grana, tu acha que precisa? A vida é uma, e é sempre viagem ou é sempre cadeia, e se for cadeia até isso pode virar viagem, depende da perspectiva pessoal, não tem melhor estimulante que a vontade de viver, mas não tem pior freio do que uma baixa autoestima, e a vida é uma, nos tempos bons e nos tempos ruins, tu não deixa de viver no tempo ruim, nas situações ruins, só se for muito ruim e morres de fome, mas dai tu da um jeito e roubas um banco ou pedes emprestado que é mais simples,  o mexicano emprestou-me 30 reais e dai eu vivi uns nove dias com isso, tempo ruim é ruim de viver mesmo, mas sempre dá pra rir, nessa mesma noite lá na Redença tinha um negócio duma serenata e não-sei-o-que, um monte de hippies e cada um dava um dois, muito chapado velho, sorriso de olhos vermelhos e não tinha nem pra o tostão, e isso também conta como coisa vivida, mais uma experiência e sem grana qualquer prazer é bem-vindo nem?; Tempo bom dá pra rir ainda mais, conheci à Rosy que é de bem do Norte e fomos bem ao Sul, lembro-me da viagem até o litoral gaúcho e da escuridão do ônibus, também um pouco ao Norte, mais não foi uma coisa assim muito longe do Sul, até Sampa só, porra meu! Gritando como um louco na rua, até na própria USP e Carandiru ou no carnaval em Floripa. Volto cá, não deixa de ser viagem, ainda que a movimentação não seja muita, e espero a oportunidade pra movimentar ainda mais.

13.10.14

Sexta

2014 - 10 - 13 - Confusão
                No espanhol a palavra jaula significa gaiola. Jaula é uma palavra muito parecida à aula, e aula no espanhol é o espaço físico onde a gente recebe a educação. É simples, então, pra um menino hispano-falante ficar obcecado por anos com aquela relação linguística entre aula e gaiola, é sem brincadeiras uma confusão perigosa. Mas o negócio pode virar um verdadeiro problema mental quando tens que ficar o dia tudo com o ar acondicionado ligado, produzindo muitos quilos de lixo inorgânico e escutando um gordão de termo Chanel falar em princípios do direito ambiental (precaução, prevenção e poluidor pagador) etecetera e numerando dicas sobre o cuidado do meio ambiente, e fora tem um mundo bem menos artificial, a Escola da Magistratura é um detalhe, guri. 

6.10.14

Quinta


            Lazer é o diabo.  No Bar Farroupilha, na Fernando Machado 899, bebi  998 copos de uísque, sempre tava o Márcio, mas cedinho só o Caué limpando as mesas, cobrando a grana e fornecendo cevas e cachaças, velhos alcoolistas, gauchada de chapéu na moda do pampa, botas de couro, bombacha  e faca no cinto, falando de outros tempos que nem viveram, Revolução Farroupilha e guerras contra argentinos e jesuítas, a conversa foi legal por vezes, mas comecei ler algumas coisas da história de Rio Grande do Sul tipo Capitania d´El Rey do Moises Velinho ou Origens da Economía Gaúcha (o boi e o poder) do Guilhermino Cesar e tomei conta que não tem assunto mais irreal do que papo de boteco. Algumas vezes caminhando desde o Centro pra casa, desviava pra lá. A escusa era ir a ler o Zero Hora e mesmo lia, e mesmo ia registrando mais um copo de uísque na conta, ou dois, ou cinco e após disso ia com as mãos no bolso da calça ou do casaco até a casa, às vezes feliz, a maioria do tempo triste, mas sempre cheguei. Quando ficava muito tarde ia bem na manha com o canivete na mão e olhando pra todo o mundo, nos olhos, só esperando, mas a Deus graças ninguém saiu furado; outras noites ficava li na Cidade Baixa esperando alguma coisa legal acontecer, uma vez, por exemplo uns jornalistas bêbados começaram a falar comigo e notaram o sotaque e fiquei bebendo com eles umas cevas artesanais na Pinacoteca, ou na Marcha da Maconha, nessa havia um monte de gente chapada gritando: Dilma-Rouseff(e)-legaliza-o-béque!!! No Gasômetro o negócio era bem mais saudável e só ia lá pra fazer esporte ou pra namorar à Rosy. Uma vez, uns policiais surpreenderam um velho fumando maconha, foi muito bizarro, por alguma razão lembrei ao avô e a fumaça noturna dos vizinhos, eles não fizeram nada nele, só pegaram a maconha sumiram.

            Lembro ter perdido o controle da vida com tanto tempo pra perder. Uma noite sai do bar, tava cedo e o desejo alcoólatra dominou todos meus sentidos, foi no Zaffari e comprei uma garrafa de Velho Barreiro e um vinho ruim da Serra, mas não  lembro como foi que acordei no quarto da pensão e nas garrafas já não tinha coisa nenhuma pra beber.